sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Land Lines Setembro de 2017


"El futuro de la renta en las escuelas públicas de los Estados Unidos proveniente del impuesto a la propiedade inmobiliaria", por Andrew Reschovsky

"GASB 77 - Revelación del costo de los incentivos en el impuesto a la propiedad inmobiliaria para empresas", por Andrew Wagaman

"Revitalizar las antiguas ciudades industriales más pequeñas de los Estados Unidos - Estrategias para lograr el éxito postindustrial desde Gary hasta Lowell", por Torey Hollingsworth e Alison Goebel



Disponível gratuitamente em PDF. Download pelo link


2017-09-15


terça-feira, 29 de agosto de 2017

A teoria na prática não é outra

Deu n’O Globo online
27-08-2017, por Eduardo Vanini

Mercado imobiliário teme prejuízos com aumento do IPTU no Rio
www.abeiradourbanismo.blogspot.com.br
— O aluguel já está muito espremido pelos altos custos dos condomínios, que aumentaram com a inflação e a elevação das despesas. Como os proprietários não conseguem mexer nesse valor, acabam reduzindo o aluguel, já que o mercado não está em um bom momento e é regido pela “lei” da oferta e da procura. Agora, com o aumento do IPTU, essa cobrança ficará ainda mais achatada. É um obstáculo a mais que o setor terá que enfrentar — prevê o vice-presidente do Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro (Secovi-Rio), Leonardo Schneider. (Destaque À beira do urbanismo) (Continua)

2017-08-29


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Que fase!!!

Deu no Estado de S Paulo/Radar Imobiliário
22-08-2017, por Redação

Incorporador defende apartamento de 10m²
Montagem:àbeiradourbanismo.blogspot.com.br
A Vitacon anunciou que vai construir um empreendimento com apartamentos a partir de 10m² em Higienópolis.
O CEO da empresa, Alexandre Frankel, afirma: “Nosso orgulho não está em oferecer unidades menores, mas sim em proporcionar opções de moradia para cada fase de vida das pessoas”.
O urbanista e professor de arquitetura da FAAP Fábio Zeppelini diz que a redução no tamanho dos apartamentos é tendência em grandes cidades.



Leitura recomendada: "O coeficiente de aproveitamento e a valorização do solo"


2017-08-23

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Esclarecer é preciso

Montagem: www.abeiradourbanismo.blogspot.com.br
Imagens originais: Internet
O caderno Morar Bem/O Globo de 06 de agosto informou, na coluna Notas Imobiliárias, que o preço nominal médio dos imóveis residenciais no Rio de Janeiro em julho de 2017 foi, segundo o Fipe Zap, R$ 10.028, com variação de -0,53% em relação a junho.

Em 13 de agosto, o caderno informou, na mesma coluna, que o preço nominal médio para venda no Rio de Janeiro em julho de 2017 foi, segundo o portal Viva Real, R$ 7.273, com variação positiva de 0,8% em relação a junho. 

Seria interessante a coluna esclarecer com as fontes o motivo da discrepância ou se estão falando de coisas diferentes.

2017-08-18

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Ouro maldito


Deu no El País online
06-08-2017, por José Luis Barbería


Turismofobia, ciudades de alquiler
Edifício de apartamentos Palma de Mallorca
Fede Serra / El País 
(..) Los 70.000-80.000 trabajadores estacionales que llegan de la Península para cubrir el verano se hacinan en pisos compartidos hasta 12 personas, a veces, al precio de 500 euros la cama o sofá, o pernoctan en coches y tiendas de campaña. No es imposible que este verano llegue a superarse el listón de la desfachatez fijado por los estrambóticos anuncios que han ofrecido un balcón con colchón por 500 euros al mes o una furgoneta con cama incorporada por 700. ¿Qué le queda al trabajador, de la hostelería, por ejemplo, si debe pagar 700-800 euros por una habitación? 
(..) “Somos pobres”, resume Joan Forteza, presidente de la Federación de Asociaciones de Vecinos, que ­reúne firmas contra la legalización de los pisos turísticos. “Nuestros salarios y pensiones son la mitad que en otros países europeos. Hay capital extranjero, grupos de inversión escandinavos, detrás de muchas empresas inmobiliarias que compran incluso edificios enteros. Venden o alquilan esas viviendas y a los 10 años las tienen amortizadas. Si no hacemos nada, la gentrificación (proceso por el que el aumento de los alquileres expulsa de sus barrios a los residentes tradicionales) acabará con la personalidad de Palma. Estamos en el camino de convertirnos en una ciudad fantasma, con tiendas en alemán, inglés y sueco, sin cines, escuelas, ni comercio local; una ciudad de souvenirs y franquicias, de cadenas hoteleras. ¿Acaso no somos capaces de ver el futuro?”, se pregunta Joan Forteza. (Continua)
Acesse a matéria complete pelo link


2017-08-15


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

As sete vidas da cidade-jardim II

Ebenezer Howard, reformador social 
autodidata, escreveu uma única obra,
publicada em 1898 sob o título
To-morrow: a Peaceful Path to Real Reform
e republicada em 1902 como 

Garden Cities of To-morrow
O artigo anterior desta série foi aberto com a proposição do professor Renato Leão Rego[1][2] de que o modelo de “cidade autônoma de gestão comunitária” postulado por Ebenezer Howard em 1898-1902 sob o nome cidade-jardim não influenciou, ao contrário da ideia amplamente difundida, o desenho urbano de Maringá, cidade nova projetada em 1943 pelo engenheiro Jorge de Macedo Vieira para a Companhia de Terras Norte do Paraná. 

O plano urbano de Vieira teria sido influenciado, de fato, pelos princípios e critérios projetuais desenvolvidos por Raymond Unwin e Barry Parker - projetistas de Letchworth, a primeira (de duas) cidades-jardim howardianas - ao longo de sua vida profissional, no caso de Unwin por via de sua obra de 1909 intitulada Town planning in practice: an introduction of the art of designing cities and suburbs e, no de Parker, pela prática exercida no Brasil entre 1917 e 1919, em projetos de loteamentos para a City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company, mais conhecida como “Companhia City” - onde Macedo Vieira, formado engenheiro pela Politécnica em 1917, estagiou e trabalhou até 1920.

Termina o artigo contrastando o método e as conclusões de Rego com a proposição de Peter Hall, apresentada em sua obra magna Cidades do Amanhã, de que Ebenezer Howard foi o founding father de uma vasta linhagem de planos urbanos inspirados, “para bem e para mal”, em sua cidade-jardim.
Boa parte, senão a maior parte do que aconteceu - para bem e para mal - com as cidades do mundo nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial remonta, podemos dizer, às ideias de uns poucos visionários que viveram e escreveram há muito tempo, quase ignorados e até mesmo rejeitados por seus contemporâneos. [Peter Hall, Cidades do Amanhã. Capítulo 1, "Cidades da Imaginação]
Ebenezer Howard é o mais importante personagem individual dessa história. [Peter Hall, Cidades do Amanhã. Capítulo 4, “A Cidade no Jardim”] [3]
A convocação de Hall a este debate não é fortuita. No artigo precedente eu me disse convencido não apenas da justeza das conclusões de Rego a respeito da linhagem do plano urbano de Maringá, mas também da “grande relevância historiográfica de sua pesquisa”. Por que? Porque sua pesquisa aponta para o problema, por ele mesmo insinuado, mas deixado em aberto nas preliminares de sua exposição, do motivo pelo qual “muita gente se refere a Maringá como uma cidade-jardim ou, quando menos, como uma cidade relacionada a este tipo urbano”. [4] 

Minha hipótese é que o postulado de Hall acima citado habita o cerne de uma interpretação arbitrária e explicitamente idealista, gobalmente difundida e largamente aceita a despeito de seu nítido viés norte-atlântico, do desenvolvimento histórico do urbanismo, do planejamento espacial e, no limite, das próprias cidades. Apoiada, no início do século passado, na autoridade de advogados ilustres como Clarence Stein, Frederick Osborn, Henry Wright, Lewis Mumford e Patrick Abercrombie, e reforçada nos anos 1960 por teóricos e críticos do calibre de Jane Jacobs e Françoise Choay, essa vertente interpretativa, que inclui adeptos fervorosos e adversários figadais, tende a atribuir ao construto de Howard, mais que a suas realizações práticas, Letchworth e Welwyn, uma influência que - salvo, talvez, dentro da própria Grã-Bretanha - ele provavelmente não tem.

Diagrama howardiano da rede de
cidades-jardim autogeridas,

dita Social City, destinada a
ocupar 
progressivamente o campo
britânico como alternativa à migração
em massa de camponeses para as
grandes cidades. Peter Hall observa,
em "Cidades do Amanhã", que a
omissão deste diagrama
na segunda edição de To-morrow:
A Peaceful Path for Real Reform
,
estorvou a compreensão de que a Social
City, não a cidade-jardim individual,
é o cerne da contribuição howardiana
ao planejamento urbano moderno.
Cabe especular se tal omissão, 

combinada à significativa mudança do
título do livro para a edição de 1902,
não fazem parte de um processo
 de adaptação do modelo original
às circunstâncias de sua execução 

a cargo da First Garden City Ltd., 
criada em 1903.
Que o leitor não me interprete mal: como terei, a seu momento, ocasião de demonstrar, eu admiro a Garden City howardiana como admiro a Ciudad Lineal de Arturo Soria y Mata como admiro a Cité Industrielle de Tony Garnier como admiro a Ville Radieuse de Le Corbusier como admiro a Broadacre City de Frank Lloyd Wright. Não por igual, é certo. Tenho minhas predileções, em nenhum caso, porém, como ideia portadora de valores universais ou de respostas transcendentais para os conflitos e aleijões da cidade moderna. Embora caiba, por certo, a discussão da maior ou menor influência de tal ou qual dentre esses "modelos" sobre o modo de ser e se reproduzir das cidades, minha opinião é que a literatura dedicada às generalizações e teorias urbanísticas tem uma notável propensão a exagerá-la. 

Para entendermos a interpretação de Hall, nem tanto sobre o papel histórico dos “visionários” em geral, mas de Ebenezer Howard em particular, precisamos em primeiro lugar saber a que ele se refere com a proposição “o que aconteceu com as cidades do mundo nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial”. É puxando retroativamente o fio da meada desse “acontecido com as cidades do mundo” - supondo que sejam, realmente, do mundo - e esboçando a composição desse “acontecido” na química de sua construção, governança e feedback intelectual - crises e conflitos; necessidades e oportunidades; investimento privado e público; avanços científicos e tecnológicos; iniciativas, projetos e planos urbanos; desenvolvimentos técnicos, teorias e especulações urbanísticas -, que se pode, creio, estabelecer não apenas a dívida real dessas cidades para com a cidade-jardim howardiana, mas também as fontes disso que, a mim, mais parece um pacote hipotecário inflacionado por um derrame de juros compostos. 

Um desafio fascinante, a que pretendo me dedicar - no ritmo requerido por uma investigação à beira do urbanismo - no transcurso dessa série. Cogito, na próxima postagem, oferecer ao leitor uma pequena compilação de elementos factuais que nos propiciem uma aproximação à cidade em que Ebenezer Howard concebeu a sua obra singular. 


___
[1] Professor titular do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Maringá - UEM.

[2] Leão Rego, Renato, “O desenho urbano de Maringá e a idéia de cidade-jardim". Acta Scientiarum- UEM v. 23, Outubro de 2001.

[3] Tradução livre de Hall, Peter. Cities of Tomorrow [1988], edição atualizada Blackwell, Londres, 1996. 

[4] Leão Rego, Renato, id.



2017-08-11

domingo, 6 de agosto de 2017

Urbano, mas nem tanto...

Deu na EBC Agência Brasil
31-07-2017, por Nielmar de Oliveira

Nova proposta de classificação territorial do IBGE vê o Brasil menos urbano
Santa Rita da Estrela - MG 
A nova topologia para a caracterização dos espaços urbanos e rurais leva em conta a densidade demográfica, a localização em relação aos principais centros urbanos e o tamanho da população. Esses são, na avaliação do IBGE, “os critérios fundamentais da metodologia, que, no entanto, ainda está em debate.
A partir do cruzamento dessas variáveis, os municípios se classificariam em cinco tipos distintos, o urbano, o intermediário adjacente, o intermediário remoto, o rural adjacente e o rural remoto.
Pelos critérios atuais, o espaço urbano é determinado por lei municipal, sendo o rural definido por exclusão à área urbana. Nesta classificação, o Brasil tem, de acordo com o Censo 2010, 84,4% da população vivendo em áreas urbanas e 15,6%, em zonas rurais.
Ao propor a discussão sobre os critérios hoje utilizados na delimitação do território nacional, o IBGE mira o aprimoramento da divulgação dos dados do Censo 2020 “de modo a que a publicação dele advinda possa oferecer à sociedade avanços diferenciados de áreas rurais e urbanas que possam servir de base para a otimização de políticas públicas e do planejamento privado”. 
O coordenador de Geografia do IBGE, Claudio Stenner, enfatiza, no entanto, que a nova metodologia não vai substituir a utilizada atualmente e que “o IBGE vai continuar a delimitação legal de urbano e rural”. (Continua)



2017-08-06


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

As sete vidas da cidade-jardim

Plano urbanístico de Letchworth, Reino Unido
(1904), por Raymond Unwin e Barry Parker

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Um recém-adquirido interesse pelas cidades novas do século XX me levou, por uma bifurcação do caminho que apenas ao pensamento é dado percorrer de uma só vez, a cenários tão distantes quanto podem ser o Noroeste paranaense e a Inglaterra do pós Segunda Guerra Mundial. 

E foi desfolhando, na literatura disponível, a árvore genealógica de dois dos maiores programas de assentamento urbano daquela época [1] que me deparei com uma velha conhecida de todos nós: a cidade-jardim. Por incrível que pareça, aí encontrei coisas deveras interessantes e problemas cuja existência nunca havia cogitado. 

O primeiro deles, objeto desta postagem, foi-me apresentado por um texto do professor Renato Leão Rego [2] publicado no ano de 2001 sob o título “O desenho urbano de Maringá e a idéia de cidade-jardim”.[3] 

“Muita gente se refere a Maringá, estado do Paraná, como uma cidade-jardim ou, quando menos, como uma cidade relacionada a este tipo urbano”, explica Rego na abertura de seu artigo. 

Plano urbanístico de Maringá (1943),
por Jorge Macedo Vieira

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Para responder à questão enunciada, o professor paranaense estudou a fundo a origem geralmente aceita desse modelo, qual seja a “proposta publicada por Ebenezer Howard em 1902 sob o título Garden Cities of Tomorrow”, bem como os projetos de Raymond Unwin e Barry Parker para Letchworth e Hampstead, na Inglaterra de inícios do século XX, e o livro-texto de Unwin Town planning in practice: an introduction of the art of designing cities and suburbs, de 1909 - além, é claro, do projeto de Jorge de Macedo Vieira para Maringá, datado de 1943. 

Sua conclusão foi que - notem bem - “a idéia original de Howard de cidade-jardim não perpassa o desenho urbano de Maringá”. 

O exame detalhado de uma longa lista de atributos do projeto original da cidade - cito: a consideração das preexistências como base para o projeto, o traçado irregular consoante com as características naturais do terreno, a presença maciça do verde como elemento de composição do espaço urbano, o caráter artístico da malha urbana, em especial o efeito do traçado regular da área central, a forma das praças, a composição pitoresca de edifícios e espaços públicos ‘fechados’ etc. - o convenceu de que eles “aproximam a forma urbana de Maringá ao tipo de cidade-jardim que Unwin e Parker materializaram” (destaque meu):
A prática do urbanismo de Unwin e de Parker em Letchworth e Hampstead, compilada no texto de Unwin e aplicada por Parker nos projetos da Cia. City em São Paulo, influenciaram e formaram a prática projetual de Jorge de Macedo Vieira, que adotou as soluções formais e os princípios de desenho daquelas duas cidades na composição da forma urbana maringaense. 

Estamos diante, ao que parece, do postulado de que entre a cidade-jardim de Howard e a de Unwin e Parker medeia uma ruptura conceitual, cuja pista eu tento seguir nesta compilação livre que fiz das palavras do autor. 

A proposição de Howard:
Howard, talvez por sua própria formação, [estava] menos interessado e envolvido com questões próprias do desenho urbano [do que] numa solução para o problema urbano que proporcionasse moradia digna para as classes trabalhadoras. 
(..) A proposta de cidade-jardim publicada por Ebenezer Howard em 1902 sob o título Garden Cities of Tomorrow não se referia a um modelo espacial e sim a um esquema teórico de uma cidade autônoma, de gestão comunitária, de dimensão limitada por extensa faixa agrícola que a circundava e que, caracterizada por altas taxas de áreas verdes, seria uma alternativa para o caos e decadência urbanos da Inglaterra do final do século XIX.
(..) De acordo com o planejamento urbano e territorial de Howard, a terra agrícola deveria ser adquirida pela comunidade organizada. (..) As cotas de participação, pagas mensalmente, habilitariam o contribuinte a usufruir o terreno, além de contribuir para a amortização do empréstimo obtido, financiar a construção da infraestrutura urbana, sistema viário, edifícios públicos e sustentar a manutenção e a administração da cidade, ou seja, o lucro do empreendimento seria revertido para a própria comunidade.
A trajetória de Unwin-Parker: 
(..) Raymond Unwin e seu sócio Barry Parker foram os responsáveis pela materialização das idéias de Howard. Juntos projetaram as cidades-jardins de Letchworth (1904-06) e Hampstead (1905) de acordo com o esquema proposto por Howard.
(..) Howard estava ligado ao projeto e à viabilização de Letchworth, mas nada tinha a ver com Hampstead, uma área localizada ao norte de Londres que, embora imaginada inicialmente como uma comunidade, não era prevista como autônoma e configurava-se como um subúrbio da capital inglesa. 
(..) Em 1909, depois destas duas experiências fundamentais, o urbanista Raymond Unwin publica Town planning in practice: an introduction of the art of designing cities and suburbs (...) [um livro que] pouco tem da cidade-jardim idealizada no esquema de Howard, sendo efetivamente um tratado de desenho urbano (..) [onde] encontram-se soluções formais e sugestões de procedimentos no desenho da cidade já experimentadas na composição da cidade-jardim, que então se transformou em um tipo arquitetônico (alternativo à cidade racionalista), uma configuração urbana cuja forma-base passou a ser empregada e reformulada em todo o mundo, abandonando o ideal de Howard concentrado nos princípios de uma vida comunitária e cooperativa. (Destaque meu)

Embora admita diferenças de interpretação no que se refere às motivações e ao alcance do programa de Howard - irrelevantes, é bom que se diga, para os seus propósitos -, considero de grande importância historiográfica a pesquisa de Rego e essencialmente correta a sua conclusão. 

Eu a traduzo da seguinte maneira: “cidade-jardim” é um termo que designa objetos bastante distintos, quase diria antagônicos, para Ebenezer Howard, o criador, e para Unwin/Parker, os epígonos. Não foi a primeira vez na história, e está longe de ter sido a última, que algo do gênero aconteceu!
The Social City, in
“To-Morrow: A Peaceful Path to Real Reform”,
1898, by [Sir] Ebenezer Howard

Clique  na imagem para ampliar

O estudo de Rego nos sugere que a cidade-jardim exaustivamente referida no estudo das origens do urbanismo moderno tem duas existências: a howardiana e a unwiniana. Mas sou tentado a considerar que ela é um objeto ainda mais complexo. 

Olhando rapidamente um pouco mais de perto, poder-se-iam distinguir pelo menos cinco vidas nesse caso: (1) o programa socioespacial howardiano, (2) a especulação urbanística também howardiana, (3) os projetos de urbanização elaborados sob tal “selo” por Unwin e Parker, (4) os respectivos fatos urbanos erguidos sobre o terreno e (5) o ponto de venda adotado pela indústria de produtos imobiliários. Duas vidas a mais que identificássemos num exame mais atento, ou que ocorresse à mente do leitor, e teríamos um objeto verdadeiramente felino. É essa multiplicidade de avatares que torna a cidade-jardim ao mesmo tempo um animal fugidio e um pau para toda obra na história do urbanismo moderno. 

Distintas cidades-jardim coexistem como que em distintos feixes de realidade, entrelaçadas por certo, mas relativamente independentes em sua gênese, desenvolvimento, ramificações e rupturas. Cabe ao historiador das cidades e do urbanismo identificar esses feixes, analisá-los e concatená-los de modo a esclarecer, na medida do possível, suas conexões e influências recíprocas.

O método de Rego consistiu em cotejar os aspectos centrais da comunidade autogerida howardiana - sem destacar, é fato, o pouco que ela contém de especulação urbanística propriamente dita - aos planos e projetos urbanísticos criados, sob seu selo, por Unwin e Parker na Inglaterra e, sob a influencia direta destes últimos, por Jorge Macedo Vieira em Maringá - planos e projetos que, por sua vez, levaram à formulação de outros corpos de ideias, mais ou menos - ou nada! - devedores à cidade-jardim de Ebenezer Howard e que se deram à história do urbanismo como mais ou menos aptos a responder aos problemas de sua própria época, lugar e circunstância. 

Algo radicalmente distinto, quero crer, do método enunciado - e obstinadamente praticado, com enorme maestria e erudição - por Peter Hall em seu clássico Cities of Tomorrow – an Intellectual History of Urban Planning and Design in the Twentieth Century, onde se lê:
Boa parte, senão a maior, do que aconteceu - para bem e para mal - às cidades do mundo nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial remonta, podemos dizer, às ideias de uns poucos visionários que viveram e escreveram há muito tempo, quase ignorados e até mesmo rejeitados por seus contemporâneos. (...) Algumas dessas visões eram utópicas, quando não milenaristas (..). Sua implementação, depois de descobertas e ressuscitadas, aconteceu no entanto em lugares, circunstâncias e por meio de mecanismos quase sempre muito diversos daqueles que seus criadores haviam cogitado (...) não admira que com resultados muitas vezes bizarros e até catastróficos. [Capítulo 1, "Cidades da Imaginação]
Ebenezer Howard é o mais importante personagem individual de toda essa história. [Capítulo 4, “A Cidade no Jardim”] [4]

Pergunta inescapável: seria Maringá, do ponto de vista de Hall, um resultado bizarro ou uma tradução catastrófica da implementação das ideias de Howard em um lugar, circunstância e por meio de mecanismos muito diversos daqueles que ele cogitou? Onde se encaixaria o projeto de Macedo Vieira em sua história do planejamento e do desenho urbano no século XX? 


Vista aérea de Maringá - Paraná - BR
Fonte: Assessoria de Comunicação PMM/Internet

Vista Aérea de Letchworth, Inglaterra, UK
Fonte: Intenet


____

[1] A colonização do noroeste paranaense pela Companhia de Terras Norte do Paraná e a construção de novas cidades no Reino Unido sob impulso do New Towns Act de 1946.

[2] Professor titular do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Maringá - UEM.


[3] Leão Rego, Renato, “ O desenho urbano de Maringá e a idéia de cidade-jardim. Acta Scientiarum - UEM v. 23, Outubro de 2001. http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciTechnol/article/view/2801/1853

[4] Tradução livre de Hall, Peter. Cities of Tomorrow [1988], edição atualizada Blackwell, Londres, 1996.



2017-07-03


domingo, 30 de julho de 2017

Cidade privada: Londres

Deu no The Guardian online
24-07-2014, por Chris Michael, editor; Jack Shenker, reporter; Naomi Larsson e Athlyn Cathcart-Keays (Guardian), Julie Cox e Chloe Smith (GiGL), pesquisa; Nick Van Mead, produção; Pablo Gutierrez, gráficos


Revealed: the insidious creep of pseudo-public space in London
A Guardian Cities investigation has for the first time mapped the startling spread of pseudo-public spaces across the UK capital, revealing an almost complete lack of transparency over who owns the sites and how they are policed.
The Granary Square, Londres
Pseudo-public spaces – large squares, parks and thoroughfares that appear to be public but are actually owned and controlled by developers and their private backers – are on the rise in London and many other British cities, as local authorities argue they cannot afford to create or maintain such spaces themselves.
Although they are seemingly accessible to members of the public and have the look and feel of public land, these sites – also known as privately owned public spaces or “Pops” – are not subject to ordinary local authority bylaws but rather governed by restrictions drawn up the landowner and usually enforced by private security companies.
(..) As things stand, corporate authority over who can and can’t access open spaces in the capital is only set to grow. Nearly all of the city’s ongoing major redevelopment projects, from the mammoth Nine Elms neighbourhood in Battersea to new construction and at Shoreditch’s Bishopsgate Goods Yard, is set to include new pseudo-public space, but details of what rights Londoners will enjoy there – or the ways in which they can expect to be policed – remain a mystery. (Continua)

Acesse a matéria completa pelo link
https://www.theguardian.com/cities/2017/jul/24/revealed-pseudo-public-space-pops-london-investigation-map



2017-07-30

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cemitério de azulejos

Foto www.avebarna.blogspot.com.br
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Se voce pensa, caro leitor, como eu sempre pensei, que cemitério de azulejos é uma loja de materiais de construção especializada em azulejos antigos e revestimentos cerâmicos fora de linha, é porque não teve a oportunidade de conhecer o pequeno cemitério da região dos Três Picos, município de Nova Friburgo. 

Foto www.avebarna.blogspot.com.br
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À beira da estrada de acesso ao Parque, onde toda a atenção é atraída pela magnífica formação rochosa que se exibe a cada curva sob formas sempre novas e mais imponentes, desponta a certa altura, no alto de uma pequena colina arborizada, um compacto agrupamento de formas geométricas coloridas, tão inesperadas em meio às plantações de hortaliças que somente um segundo pensamento admite ser um cemitério e um terceiro um cemitério de humanos.

Foto www.avebarna.blogspot.com.br
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Semioculta atrás de uma cerca viva, a rampa de acesso ao campo-santo desemboca num platô gramado onde uma construção avarandada serve, com certeza, de abrigo às últimas exéquias e, do outro lado, bancos estrategicamente dispostos se oferecem aos que preferem solidarizar-se a uma distância segura da presença física da morte.

Foto www.avebarna.blogspot.com.br
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Ultrapassado o portãozinho de ferro, o cemitério propriamente dito estende-se colina acima repartido por um estreito passeio que dá acesso, de um e outro lado, a grupos de jazigos revestidos de cerâmicas decorativas comumente utilizadas em pisos e paredes de varandas, salas, quartos, cozinhas, banheiros e áreas de serviço, todos posicionados de frente para a rodovia e a montanha, com suas respectivas lápides e relicários, mas dispostos mais ou menos aleatoriamente no terreno de modo tal que dão ao conjunto o curioso aspecto de um bairro popular - fantasma, é claro - de arquitetura cubista, multiface e multicor.

Tão apto quanto qualquer necrópole repleta de mármores e granitos ao trânsito dos usuários para a bem-aventurança dos céus, o cemitério dos Três Picos – seu nome verdadeiro ainda estou por descobrir – é um lugar que não descuida, como convém à celebração de vidas vividas com modéstia, dignidade e muito trabalho, da vistosa domesticidade de suas eternas moradas terrenais. 


2017-07-27


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Imóveis: subutilização, abandono e ruína

Deu no blog Sonia Rabello - A Sociedade em Busca de Seu Direito
24-07-2017, por Sonia Rabello
http://www.soniarabello.com.br/tres-questoes-distintas-com-diferentes-solucoes-imoveis-abandonados-sem-uso-e-imoveis-em-ruinas/

Três questões distintas com diferentes soluções: imóveis sem uso, imóveis abandonados, e imóveis em ruínas
Av Rui Barbosa 170 Rio de Janeiro
Fonte: Blog Sonia Rabello
Publicou-se, ultimamente, várias opiniões e manifestações sobre imóveis abandonados, vazios  e em ruínas. Estes últimos com ênfase naqueles preservados em centros históricos como Rio, Salvador, Recife, São Luís e outras inúmeras cidades brasileiras.
(..) As três palavras mais usadas quando se mencionam estes imóveis são vazios, em ruínas e abandonados. As três locuções significam diferentes problemas, seja quando o foco da questão for a preservação do patrimônio, seja quando formos tratar dos problemas urbanísticos, especialmente do acesso à moradia e o uso do estoque imobiliário das cidades.
(..) Cada uma dessas situações do patrimônio imobiliário de uma cidade são juridicamente distintas, embora, em muitos casos, possam estar sobrepostas.Mas, em todos os casos, as soluções não são pontuais, nem mágicas, e todas dependem necessariamente de um planejamento urbano bem construído, de medidas permanentes de médio prazo e, especialmente de órgãos e servidores públicos que construam e participem permanentemente de sua efetivação.
Sem eles, os servidores, nada poderá ser corretamente implantado e concretizado. (Continua)
Sonia Rabello é jurista e Professora Titular de Direito Administrativo da UERJ 

terça-feira, 11 de julho de 2017

Medianera americana

Manhatttan
Sempre me intrigou, nas ocasiões que tive de visitar Nova York, a profusão de janelas abertas nas empenas* das edificações, antigas e novas, clássicas e modernas, residenciais e comerciais - algo que, de modo geral, inexiste no Brasil.

E a razão é simples: nossas leis urbanísticas e códigos de obras não permitem a abertura de janelas sujeitas - ainda que apenas teoricamente em uma infinidade de casos - a acabar bloqueadas por uma futura incorporação no lote vizinho. 

Uma janela deve, obrigatoriamente, abrir para o espaço aéreo do lote em que está construída a edificação. 

Ocorre que esta regra geral vigora também nos Estados Unidos! Uma rápida pesquisa na Internet me leva a pensar que a diferença reside na maneira como, nesse país, a norma tem sua aplicação balizada de um lado pela circunstância, de outro pelo mercado. 

Manhattan
Me explico. A janela aberta na empena, dita lot line window - literalmente “janela na divisa do terreno” - é um direito precário, vale dizer, o proprietário do imóvel tem a obrigação de emparedá-la no caso de incorporação (development) do lote vizinho, sob pena de infração das normas de segurança contra incêndio. O licenciamento da edificação admite a abertura de janelas de empena, mas o atendimento das normas de ventilação e iluminação natural supõe a existência de pelo menos uma que não o seja! 

Manhattan
Esta é a razão pela qual as janelas de empena constituem um tema recorrente em saites dedicados à compra-venda (nem tanto aluguel, por razões óbvias) de apartamentos e salas comerciais. Eles alertam para a incidência, nos preços de oferta dos imóveis, de benefícios derivados da existência de janelas de empena, a serem descontados nas transações considerando a probabilidade de seu fechamento compulsório no futuro. Um cômodo exclusivamente iluminado e ventilado por uma janela de empena não pode ser computado como tal para nenhum fim juridicamente relevante. Um dormitório ventilado e iluminado por uma janela de empena não é um dormitório. 

Outro aspecto da janela de empena norte-americana decorre do amplo desenvolvimento, no país, do mercado privado de espaço aéreo. Um incorporador que pretenda construir uma torre de 80 pavimentos colada a um antigo edifício de 10 ou 20 pode adquirir daquele condomínio, em perpetuidade, o direito ao espaço aéreo acima da sua cobertura, de maneira a tornar viável a produção de unidades dotadas de fachadas inteiras, envidraçadas inclusive, na empena lateral do lote. 

Washington DC
A consequencia mais relevante dessas regras para a arquitetura urbana talvez seja o aumento relativo das superfícies "vivas" no interior das quadras, proporcionando interessantes efeitos volumétricos e soluções tridimensionais onde, em condições "normais", não haveria mais que a relação entre a altura da edificação e o desenho da fachada. 

Do ponto de vista da experiência latino-americana, a primeira impressão é a substancial redução do número de “empenas cegas” virtualmente perenes, inconveniente estético e ambiental típico do processo de formação da cidade segundo o sistema de edificação lote a lote, amplificado nos grandes centros - que dirá nos grandes centros norte-americanos - pela superposição de ciclos de valorização imobiliária e seus respectivos gabaritos construtivos. As empenas cegas são, pode-se dizer, um traço distintivo da arquitetura das nossas grandes cidades. 


Cito três exemplos que tenho ao alcance da mão: a Figura 1 mostra a justaposição de edificações de dois pavimentos sujeitas à legislação de proteção do patrimônio cultural com edifícios de 10-12 pavimentos construídos no ciclo de valorização imobiliária que a precedeu, na região da Lapa, centro do Rio de Janeiro; a Figura 2 mostra a justaposição de edifícios de apartamentos colados nas divisas, erguidos, talvez, em distintas fases do ciclo de renovação urbana, o primeiro com fachada sujeita ao afastamento frontal mínimo, o segundo com afastamento frontal ampliado em troca de maior altura, na Rua Moreira César, Niterói; a Figura 3 exibe a justaposição de um edifício de apartamentos colado na divisa com o lote de esquina, isolado pela aleatoriedade do próprio mercado, na Avenida Roberto Silveira, também em Niterói. 

O fato de o urbanismo contemporâneo ter encontrado na propaganda e na arte do grafitti - não necessariamente nessa ordem - usos públicos alternativos para as empenas cegas das edificações, com resultados ora detestáveis ora bem interessantes, não nega a dificuldade histórica da nossa disciplina de ajustar as mudanças abruptas dos paradigmas normativos, quase sempre ditadas por novos ciclos de valorização do solo, a uma reconstrução urbana satisfatória sob os ângulos estético, funcional e ambiental.

Janelas a título precário e mercado de espaço aéreo tampouco são, seguramente, respostas para a distopia que o cineasta e roteirista argentino Gustavo Taretto identifica como a segunda natureza da sua Buenos Aires: “Irregularidades estéticas - e éticas - de edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica, demonstrando total ausência de planejamento; exatamente como a nossa vida”. 

Movido pela mesma perplexidade, eu escrevi esta postagem ruminando a ideia de que a poesia urbana quintessencialmente nova-iorquina de Medianeras talvez não pudesse ter sido concebida e realizada - que ironia! - em Nova York, a pátria dos arranha-céus e das lot line windows



segunda-feira, 3 de julho de 2017

E os patrícios vão morar... nas caravelas! (2)

Deu no Visão Economia online
01-07-2017, por Alexandra Correia

As rendas loucas de Lisboa e do Porto
(..) Os preços das casas no centro do Porto subiram 13% em 2016 (em relação ao ano anterior) e no centro histórico de Lisboa a valorização foi de 19%, de acordo com a base de dados Confidencial Imobiliário. 
E basta abrir um qualquer site de venda e aluguer de imóveis para encontrar um estúdio em São Vicente que se arrenda por €1 250 por mês ou um T1 em Alfama por €2 200.
E a tal família, com o ordenado médio, vive aonde? Podemos considerar que um casal que leva para casa, em conjunto, €1 800 brutos, faz parte da classe média, cuja classificação tanta polémica tem dado? Imaginemos que têm dois filhos menores, que precisam de um T2, no mínimo, e que o ordenado líquido conjunto é de 
€1 400. As boas práticas indicam que não deveriam gastar mais de 35% dessa liquidez na renda de casa, ou seja, um máximo de €490. Vão viver aonde? (Continua)


2017-07-03